Wednesday, February 26, 2020


ESTRELA

Cecília Meireles
Viagem (1939)


Quem viu aquele que se inclinou sobre palavras trêmulas,
de relevo partido e de contorno perturbado,
querendo achar lá dentro o rosto que dirige os sonhos, 
para ver se era o seu que lhe tivessem arrancado?

Quem foi que o viu passar com seus ímãs insones,
buscando o polo que girava sempre no vento?
- Seus olhos iam nos pés, destruindo todas as raízes liricas,
e em suas mãos sangrava o pensamento.

E era o seu rosto, sim, que estava entre versos andróginos,
preso em círculos de ar, sobre um instante de festa!
Boca fechada sob flores venenosas,
e uma estrela de cinza na testa.

Bem que ele quis chamar pelo seu nome em voz muito alta,
- mas o desejo não foi além do seu pescoço. 
E ficou diante de sua cabeça, estruturando-se
como o frio dentro de um poço.

E não pôde contar a ninguém seu fim quimérico.
A ninguém. Pois a língua que fora sua estava morta,
e ele era um prisioneiro entre paredes transparentes,
entre paredes transparentes, mas sem porta.

Disto ele soube. O que nunca entendeu, porém, e o que lhe amarra
o coração com ardentes cordas de desgosto
é aquela estrela de cinza - aquela estrela grande e plácida -
derramando sombra em seu rosto.



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