ESTRELA
Cecília Meireles
Viagem (1939)
Quem viu aquele que se inclinou sobre palavras trêmulas,
de relevo partido e de contorno perturbado,
querendo achar lá dentro o rosto que dirige os sonhos,
para ver se era o seu que lhe tivessem arrancado?
Quem foi que o viu passar com seus ímãs insones,
buscando o polo que girava sempre no vento?
- Seus olhos iam nos pés, destruindo todas as raízes
liricas,
e em suas mãos sangrava o pensamento.
E era o seu rosto, sim, que estava entre versos andróginos,
preso em círculos de ar, sobre um instante de festa!
Boca fechada sob flores venenosas,
e uma estrela de cinza na testa.
Bem que ele quis chamar pelo seu nome em voz muito
alta,
- mas o desejo não foi além do seu pescoço.
E ficou diante de sua cabeça, estruturando-se
como o frio dentro de um poço.
E não pôde contar a ninguém seu fim quimérico.
A ninguém. Pois a língua que fora sua estava morta,
e ele era um prisioneiro entre paredes transparentes,
entre paredes transparentes, mas sem porta.
Disto ele soube. O que nunca entendeu, porém, e o que lhe
amarra
o coração com ardentes cordas de desgosto
é aquela estrela de cinza - aquela estrela grande e plácida
-
derramando sombra em seu rosto.
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