Thursday, February 27, 2020

ELEGIA DO SILÊNCIO

Federico García Lorca
Livro de Poemas (1921)


Silêncio, onde levas
teu cristal empanado 
de risos, de palavras
e soluços da árvore?
Como limpas, silêncio,
o orvalho do canto
e as manchas sonoras 
que os mares distantes
deixam sobre a alvura
serena de teu manto?
Quem fecha tuas feridas 
quando sobre os campos 
alguma velha nora
crava seu lento dardo
em teu cristal imenso?
Aonde vais se no ocaso 
te ferem os sinos
e quebram teu remanso
as bandas de coplas
e o grande rumor dourado
que cai sobre os montes
azuis soluçando?

   O ar do inverno
faz teu azul em pedaços,
e trunca tuas florestas
o lamentar calado
de alguma fonte fria.
Onde pousas tuas mãos,
o espinho do riso
ou a calorosa machadada 
da paixão encontras.
Se te diriges para os astros
o zumbido solene 
dos azuis pássaros 
rompe o grande equilíbrio
de teu escondido crânio.

   Fugindo do som 
és o próprio som,
espectro de harmonia, 
fumaça de grito e canto.
Vens para dizer-nos
nas noites escuras 
a palavra infinita 
sem alento e sem lábios.

   Tradeado de estrelas
e maduro de música,
onde levas, silêncio,
tua dor extra-humana,
dor de estar cativo
na aranha melódica, 
cego já para sempre
teu manancial sagrado?

   Hoje arrastam tuas ondas 
turvas de pensamento
a cinza sonora
e a dor de antanho.
Os ecos dos gritos
que para sempre se foram. 
O estrondo remoto
do mar, mumificado.

   Se Jeová adormeceu,
sobe ao trono brilhante,
quebra-lhe na cabeça
um luzeiro apagado, 
e acaba seriamente 
com a música eterna, 
a harmonia sonora 
de luz, e enquanto isso, 
volta a teu manancial,
onde na noite eterna, 
antes de Deus e do tempo, 
manavas sossegado.

METAMORFOSE

Cecília Meireles
Viagem (1939)


Súbito pássaro
dentro dos muros
caído,

pálido barco 
na onda serena
chegado.

Noite sem braços!
Cálido sangue
corrido.

E imensamente
o navegante 
mudado.

Seus olhos densos 
apenas sabem 
ter sido.

Seu lábio leva
um outro nome 
mandado.

Súbito pássaro 
por altas nuvens 
bebido.

Pálido barco 
nas flores quietas 
quebrado.

Nunca, jamais 
e para sempre 
perdido
o eco do corpo
no próprio vento
pregado.

PASSEIO
Cecília Meireles
Viagem (1939)


Quem me leva adormecida
por dentro do campo fresco,
quando as estrelas e os grilos
pulpitam ao mesmo tempo?

O céu dorme na montanha,
o mar flutua em si mesmo,
o tempo que vai passando
filtra a sombra nas areias.

Quem me leva adormecida
sobre o perfume das plantas,
quand, no fundo dos rios
a água é nova a cada instante?

Não há palavras nem rostos:
eu mesma não me estou vendo.
Alguém me tirou do corpo, 
fez-me nome, unicamente,

nome, para que as perguntas
me chamem, com vozes tristes,
e eu não me esqueça de tudo
se houver um dia seguinte.

O céu roda para oeste:
as pontes vão para as águas.
O vento é um silêncio inquieto
com perspectivas de barcos.

Quem me leva adormecida
pelas dunas, pelas nuvens,
com este som inesquecível
do pensamento no escuro?

Wednesday, February 26, 2020


ESTRELA

Cecília Meireles
Viagem (1939)


Quem viu aquele que se inclinou sobre palavras trêmulas,
de relevo partido e de contorno perturbado,
querendo achar lá dentro o rosto que dirige os sonhos, 
para ver se era o seu que lhe tivessem arrancado?

Quem foi que o viu passar com seus ímãs insones,
buscando o polo que girava sempre no vento?
- Seus olhos iam nos pés, destruindo todas as raízes liricas,
e em suas mãos sangrava o pensamento.

E era o seu rosto, sim, que estava entre versos andróginos,
preso em círculos de ar, sobre um instante de festa!
Boca fechada sob flores venenosas,
e uma estrela de cinza na testa.

Bem que ele quis chamar pelo seu nome em voz muito alta,
- mas o desejo não foi além do seu pescoço. 
E ficou diante de sua cabeça, estruturando-se
como o frio dentro de um poço.

E não pôde contar a ninguém seu fim quimérico.
A ninguém. Pois a língua que fora sua estava morta,
e ele era um prisioneiro entre paredes transparentes,
entre paredes transparentes, mas sem porta.

Disto ele soube. O que nunca entendeu, porém, e o que lhe amarra
o coração com ardentes cordas de desgosto
é aquela estrela de cinza - aquela estrela grande e plácida -
derramando sombra em seu rosto.




PERSPECTIVA

Cecília Meireles
em Viagem (1939)


Tua passagem se fez por distâncias antigas.
O silencio dos desertos pesava-lhe nas asas
e, juntamente com ele, o volume das montanhas e do mar.

Tua velocidade desloca mundos e almas.
Por isso, quando passaste, caiu sobre mim tua violência
e desde então alguma coisa se aboliu.

Guardo uma sensação de drama sombrio, com vozes de ondas lamentando-me.
E a multidão das estrelas avermelhadas fugindo com o céu para longe de mim.

Os dias que vêm são feitos de vento plácido e apagam tudo.
Dispersam a sombra dos gestos sobre os cenários.
Levam dos lábios cada palavra que desponta.
Gastam o contorno da minha síntese.
Acumulam ausência em minha vida...

Oh! um pouco de neve matando, docemente, folha a folha....
Mas a seiva lá dentro continua, sufocada,
nutrindo de sonho e morte.