Federico García Lorca
Livro de Poemas (1921)
Silêncio, onde levas
teu cristal empanado
de risos, de palavras
e soluços da árvore?
Como limpas, silêncio,
o orvalho do canto
e as manchas sonoras
que os mares distantes
deixam sobre a alvura
serena de teu manto?
Quem fecha tuas feridas
quando sobre os campos
alguma velha nora
crava seu lento dardo
em teu cristal imenso?
Aonde vais se no ocaso
te ferem os sinos
e quebram teu remanso
as bandas de coplas
e o grande rumor dourado
que cai sobre os montes
azuis soluçando?
O ar do inverno
faz teu azul em pedaços,
e trunca tuas florestas
o lamentar calado
de alguma fonte fria.
Onde pousas tuas mãos,
o espinho do riso
ou a calorosa machadada
da paixão encontras.
Se te diriges para os astros
o zumbido solene
dos azuis pássaros
rompe o grande equilíbrio
de teu escondido crânio.
Fugindo do som
és o próprio som,
espectro de harmonia,
fumaça de grito e canto.
Vens para dizer-nos
nas noites escuras
a palavra infinita
sem alento e sem lábios.
Tradeado de estrelas
e maduro de música,
onde levas, silêncio,
tua dor extra-humana,
dor de estar cativo
na aranha melódica,
cego já para sempre
teu manancial sagrado?
Hoje arrastam tuas ondas
turvas de pensamento
a cinza sonora
e a dor de antanho.
Os ecos dos gritos
que para sempre se foram.
O estrondo remoto
do mar, mumificado.
Se Jeová adormeceu,
sobe ao trono brilhante,
quebra-lhe na cabeça
um luzeiro apagado,
e acaba seriamente
com a música eterna,
a harmonia sonora
de luz, e enquanto isso,
volta a teu manancial,
onde na noite eterna,
antes de Deus e do tempo,
manavas sossegado.
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