Friday, April 3, 2020

NÁUFRAGO

Sophia de Mello Breyer Andresen
Mar Novo (1958)

Agora morto oscilas 
Ao sabor das correntes 
Com medusas em vez de pupilas.

Agora reinas entre imagens puras
Em países transparentes e de vidro, 
Sem coração e sem memória 
Em todas as presenças diluído.

Agora liberto moras
Na pausa branca dos poemas.

Teu corpo sobe e cai em cada vaga,
Sem nome e sem destino
Na limpidez da água.

Aquele que partiu
Precedendo os próprios passos como um jovem morto
Deixou-nos a esperança.

Ele não ficou para connosco
Destruir com amargas mãos seu próprio rosto.
Intacta é a sua ausência 
Como a estátua de um deus
Poupada pelos invasores de uma cidade em ruinas.
Ele não ficou para assistir
À morte da verdade e a vitória do tempo.

Que ao longe
Na mais longínqua praia
Onde só haja espuma sal e vento
Ele se perca tendo-se cumprido 
Segundo a lei do seu próprio pensamento.

E que ninguém repita o seu nome proibido.


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